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No rumo certo, mas longe da chegada

27 de julho 2020 | Antonio Penteado Mendonça

O Brasil é palco dos testes com as vacinas contra o coronavírus. De um lado, é muito bom porque acende uma luz no fim do túnel, mas, de outro, é triste porque expõe nossa situação vergonhosa no concerto das nações que combatem a pandemia.

A única chance de o brasileiro não morrer vitimado pelo coronavírus é o surgimento de uma vacina que imunize a população, nos defendendo contra a pandemia que, até a chegada de fato do remédio abençoado, irá cobrar perto de mil mortes por dia.

Não há chance de a vacina milagrosa chegar antes do primeiro semestre do ano que vem. Tanto faz se a chinesa, a inglesa ou a americana, todas têm um caminho a ser percorrido e, por mais que se apresse, não há como pular etapas.

As vacinas em fase de teste contra o coronavírus são uma luz no fim do túnel, mas não são a certeza da imunização. É provável que pelo menos uma delas apresente os resultados esperados e combata o vírus com eficiência, imunizando as populações do mundo, mas entre o seu desenvolvimento e a sua entrada em produção comercial tem um período de tempo que não pode ser reduzido, porque não há como apressar o processo.

É verdade, a busca pela imunização contra o coronavírus levou os laboratórios a trabalharem em velocidade inédita, reduzindo em anos os prazos para o desenvolvimento da vacina. O momento atual é a hora da verdade. Ou a vacina funciona ou a vacina não funciona. Nós temos três balas no revólver, mas não se pode dizer com certeza que pelo menos uma acertará o alvo.

A fase de testes, segundo os especialistas, é quando as chances de a vacina dar errado são mais concretas. É nessa fase que se testa se ela cumpre ou não sua missão, quer dizer, se ela tem ou não a capacidade imunizadora essencial para ser aplicada na população, controlando a pandemia.

Três chances são melhores do que nenhuma. Se o mundo não tivesse se mobilizado para encontrar a vacina salvadora, o vírus continuaria sua marcha, ceifando milhares de vidas ao redor do planeta. Se ainda é cedo para dizer se uma delas vai funcionar, de outro lado, a simples testagem com os voluntários brasileiros traz a esperança de que milhões de pessoas não morram, atingidas por uma doença devastadora e cruel.

Ao contrário do que se possa imaginar, o fato de os testes estarem sendo realizados aqui não nos deixa bonitos na foto. As razões para as testagens serem feitas no Brasil são de ordem econômica, já que estamos custeando parte das pesquisas, e pragmática, já que somos o segundo país com maior incidência de casos e de mortes decorrentes do coronavírus. Ou seja, não faltam voluntários para se submeterem aos testes.

Enquanto a vacina não chega, o País seguirá vivendo a trágica rotina de mais de mil mortos por dia. E a população, indiferente à propagação da pandemia Brasil a fora, tocará sua vida, como se os mortos fossem o preço de se estar vivo e aproveitar a vida.

A recessão já é real e terrível. O empobrecimento da sociedade terá como resultado um desemprego inédito, a quebradeira de milhares de empresas, o aumento da pobreza e a miséria tomando conta das ruas.

Vários setores econômicos serão severamente afetados e o desaparecimento de parte de suas empresas é a consequência lógica. O setor de seguros não tem risco sistêmico.

Quer dizer, por mais dura que seja a vida nos próximos tempos, não haverá uma quebradeira generalizada. As reservas administradas pelas empresas do setor passam de um R$ 1,2 trilhão. A maioria das companhias está capitalizada e os programas de resseguros garantem a solidez das operações.

O faturamento em 2020, ainda que nos outros meses se recupere frente aos resultados de abril, será negativo na comparação com 2019. Em tempos de vacas magras, seguros de veículos, fiança locatícia, transportes, viagem, vida em grupo e planos de saúde privados serão duramente atingidos, mas não serão os únicos.

Nesse cenário, algumas empresas podem ter problemas sérios, inclusive de sobrevivência, mas serão a exceção para confirmar a regra.

Referência: Estado de São Paulo