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A saúde chega à mesa dos CEOs

14 de julho 2020 | Luiz Carlos Silveira Monteiro

A mudança no olhar sobre a saúde, a partir da prevenção e da coordenação de cuidados, da inovação digital e da alteração dos modelos de custeio, é muito mais do que uma tendência. Na prática, essa realidade reflete uma ação emergencial para evitar um colapso.

Os números, influenciados também pela pandemia da Covid-19, não mentem. A mais recente pesquisa divulgada pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) apontou uma baixa de 283 mil beneficiários entre abril e maio deste ano. No comparativo de 12 meses, o setor perdeu pouco mais de 124 mil contratos. A totalidade de beneficiários ficou abaixo de 47 milhões, forçando um inevitável aumento dos custos dos planos e afugentando ainda mais usuários.

A saúde pública também está na UTI. De acordo com dados do INSS, em média, mais de 190 mil benefícios são concedidos anualmente a profissionais, que precisaram ser afastados de suas atividades por problemas clínicos ocasionados diretamente pelo trabalho. As despesas nessa área alcançam patamares que superam em três vezes a inflação geral da economia.

A realidade não difere da que presenciamos no sistema de saúde dos Estados Unidos, que consome por ano US$ 101 bilhões em tratamentos contra o diabetes e US$ 88 bilhões para o combate a doenças cardiovasculares e a dores nas costas e no pescoço. Detalhe: a American Medical Association revela que 60% desse gasto se destina a atender pessoas abaixo da linha dos 65 anos.

O caminho rumo à transformação é tão inevitável quanto óbvio. E é salutar perceber que a reação parte de quem realmente tem poder para alterar essa realidade. A Mercer Marsh Benefícios detectou, no mercado corporativo, um aumento de 19% do gasto per capita em promoção de saúde na comparação entre 2017 e 2019. Foram entrevistadas 601 empresas de grande e médio porte. Outro indicador mostra que 64% das companhias que mantinham programas de prevenção e bem-estar planejam ampliar o investimento até 2021 e 78% das que não desenvolvem esse tipo de ação preveem implementá-la nos próximos 12 meses.

Definitivamente, o assunto “invadiu” as mesas dos CEOs, preocupados com a bomba-relógio que representam as despesas com saúde, inferiores somente à própria folha de pagamento. Além disso, cada vez mais eles convivem com o peso do absenteísmo. E outro fator tão preocupante é o presenteísmo – quando o colaborador está na empresa, consumindo tempo e energia, mas com zero de produtividade devido a algum agravamento em suas condições de saúde.

Grandes players internacionais também despertaram para o problema. Nos Estados Unidos, a Apple já iniciou parcerias com grupos da área da saúde que mantêm planos corporativos. O objetivo é facilitar o uso da tecnologia para que pacientes acessem recursos de saúde mais assertivos em relação às suas necessidades. Em uma só plataforma, seriam gerados prontuários com histórico completo do usuário, acessível por todos os players do setor.

Porém, o avanço real do conceito de gestão de saúde pressupõe o fim dos modelos tradicionais amparados somente por uma rede ambulatorial e de dispensação de medicamentos, com total desintegração. Modelos interessantes de gestão começam a surgir espelhados por um ecossistema similar ao praticado por instituições como a Accountable Care Organizations (ACOs) e a Health Savings Account (HSA), que integram todas as ações de saúde e definem atribuições claras para cada ator envolvido nessa missão.

Os planos seriam os intermediários financeiros. Os médicos passam a interagir e monitorar as ações de outros profissionais de saúde, assumindo a missão de atuar como coordenadores de cuidados dos pacientes. Estes, por sua vez, tornam-se responsáveis pela boa utilização dos recursos. A saúde ocupacional direcionaria seu foco no assistencial; e as empresas entenderiam sua importância como patrocinadoras e gestoras do risco de saúde populacional.

Há 15 anos, sequer existiam informações sobre os doentes crônicos que faziam parte do quadro das empresas. Elas acreditavam que apenas dois perfis integravam suas carteiras: os saudáveis e os doentes. Aqueles que, recorrentemente, faziam uso dos serviços porque não cuidavam das suas enfermidades não eram sequer reconhecidos. As consequências da falta de colaboração entre os diversos prestadores e do incentivo à utilização do pronto-socorro foram perversas. Mas a cultura da mudança começa a chegar em quem decide.

Referência: Estadão on-line