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Os neoespecialistas e os riscos para a prática da medicina

05 de junho 2020 | Fernando Maluf

Eles vão se responsabilizar pelo uso inadequado de certas medicações? 

A medicina, ciência fascinante, é marcada pela ética e pela maior qualidade possível dos resultados que nascem dos estudos. Não é uma ciência exata. Por isso, quando cuidamos de vidas, precisamos da maior clareza e exatidão sobre os tratamentos disponíveis — leia-se eficácia e taxas de insucesso.

Umas das piores experiências para qualquer profissional da saúde é perder uma vida pelo efeito do remédio e não da doença.

Nós, médicos, apartidários no cuidado, nos emocionamos quando um paciente se cura, quando há uma nova descoberta, quando os limites das ciências são suplantados. Quando uma medicação recebe uma recomendação para determinada doença, uma série estudos científicos, baseados em critérios rígidos, demonstraram com clareza que ela funcionou. Este conceito simples é aprendido nos primeiros anos da faculdade e não é passível de subjetividade, nem mesmo durante uma pandemia. Infelizmente, isso não ocorreu com a polêmica para o uso da cloroquina, dentre outros, para a Covid-19.

Preocupa-me a súbita relevância que alguns médicos (felizmente poucos) alcançaram em meio à pandemia. Em algumas semanas, foram alçados a grandes especialistas de uma doença sobre a qual pouco se conhece. Num momento de angústia e medo, em que a informação correta tem extremo valor, vejo colegas sedentos por ganhar minutos de fama efêmera. Mais perplexo ainda fico quando os neoespecialistas não prescreviam as muitas medicações, apregoadas agora com tanta veemência na frente das telas, em suas carreiras anteriormente (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e por aí vai).

Infelizmente, em sua maioria, os neoespecialistas não são protagonistas de pesquisas clínicas no país e não conduziram estudos relevantes pelo mesmo tempo que prescreveram a última cloroquina antes da pandemia, sem mencionar que muitas vezes tem parco conhecimento do que é uma pesquisa de adequada qualidade e metodologia.

Com a súbita fama dos neoespecialistas, algumas questões surgem de imediato na minha consciência. É certo desqualificar os estudos de alta qualidade que não mostram benefícios da cloroquina? Os neoespecialistas vão ter a mesma coragem que tiveram em frente às câmeras ou mídias sociais para se desculpar pela má informação dos quais foram mensageiros após a publicação de estudos que mostram que a utilização indiscriminada desses medicamentos pode ter aumentado a mortalidade em pacientes com Covid-19? Vão se se responsabilizar pelas mortes pelo uso inadequado e não comprovado dessas medicações e consolar as respectivas famílias pelo falecimento de seus entes queridos?

Não tenho a pretensão de que, subitamente, os neoespecialiastas, motivados por vaidade, oportunismo, ou viés político, mudem sua postura de revelar o quão pouco conhecem da doença ou das medicações, nem que fortaleçam seus pilares éticos. Mas alerto para o potencial perigo que podem causar pela informação errada, rasa e recheada de interesses pessoais. Seu discurso, disfarçado de ciência, chega a milhões de brasileiros neste momento de angústia e fragilidade, levando a caminhos perigosos por meio de vozes que ecoam em grande escala nos órgãos oficiais e mídias sociais.

Neste sentido, a imprensa precisa cumprir seu dever de informar, filtrar de modo rigoroso a informação e ao mesmo tempo selecionar os formadores de opinião. Já as sociedades médicas devem conversar mais com a população, oferecendo dados e desmentido as inverdades. E os conselhos de medicina têm de ser mais vigilantes com esses neoespecialistas.

Esta é a oportunidade para cada um de nós dar o melhor de si, de elevarmos os preceitos da generosidade, da solidariedade e do conhecimento em prol da sociedade.

Tenho esperança que, desses sentimentos nobres, surjam calma e lucidez. Assim, iremos superar os neoespecialistas. Os seus holofotes se transformarão em sombra, as suas credibilidades em desconfiança, e as suas opiniões em motivo de descaso e fragilidade, como num castelo de areia que tem suas bases “derretidas” após a primeira onda passar e a maré baixar.