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Quando a crise aperta na saúde, os adultos voltam à sala

02 de março 2020 | Mathias Alencastro

Ações de governos Bolsonaro e Trump em relação ao coronavírus destoam de suas posturas do dia a dia

Face ao surto de coronavírus, o governo Bolsonaro tem andado irreconhecível. O ministério da Saúde, chefiado por Luiz Henrique Mandetta, emite comunicados claros e surpreendentemente bem ortografados para os padrões da Esplanada.

O corpo técnico está coeso, tranquilo e preparado. Os laboratórios operam a pleno vapor e realizam proezas técnicas.

Enquanto isso, o presidente e os seus aliados tentam evitar as habituais provocações e declarações incendiárias nas questões de saúde pública. Até parece que as instituições estão funcionando normalmente.

Crises sanitárias são especiais porque colocam os populistas diante das suas próprias contradições: “A desconstrução de Estado administrativo”, pedra angular do projeto político de Steve Bannon, eminência parda do bolsonarismo, deixaria a comunidade internacional completamente despreparada para enfrentar epidemias.

Até Donald Trump, que se elegeu prometendo atacar o “Estado profundo” de Washington e nunca hesitou em indicar figuras do setor privado para cargos-chave, caiu na realidade e apelou para os servidores públicos.

Para lidar com uma crise que pode ameaçar suas chances de reeleição, o presidente americano deu poderes extraordinários a um painel em parte composto por supermédicos com décadas de serviço.

Na Itália, a impressionante demonstração de força do serviço público de saúde, um dos mais reputados do mundo, apequenou as figuras populistas.

Ninguém dá muita bola para as ponderações de Luigi de Maio, ministro das Relações Exteriores e membro do Movimento 5 Estrelas, um reduto de grupos antivacinas.

Porém, tal como o vírus, o populismo sabe se adaptar às novas circunstâncias.

Temendo uma perda de credibilidade, a extrema direita europeia tenta existir politicamente recorrendo a chavões como o fechamento das fronteiras.

Uma forma simples e eficaz de explorar a xenofobia contra asiáticos e, em particular, africanos, acusados por Matteo Salvini de importar o coronavírus para a Europa.

Na realidade, o que está acontecendo é o contrário: os primeiros pacientes identificados em Lagos, capital da Nigéria, são de origem italiana.

Os nigerianos podem nos ensinar muito sobre o combate a epidemias. Como narrado no cativante “93 dias”, filme sobre o surto de ebola de 2014, uma pequena equipe com meios limitados operou um milagre e salvou Lagos, um caldeirão de 21 milhões de pessoas, de uma calamidade anunciada.

Poucos anos depois, os médicos, elevados a heróis nacionais, protestaram contra salários atrasados e falta de equipamentos. Quase todos tiveram de abandonar seus postos de trabalho.

Desdenhados em tempos de paz, os profissionais de saúde pública vão para a linha da frente em tempos de guerra. E os raros momentos de reconhecimento duram pouco mais do que a epidemia.

Referência: Folha de São Paulo