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Pare de construir mais hospitais

31 de janeiro 2020 | Michael Kapps

Neste ciclo de eleições de 2020 vamos provavelmente ver muitas campanhas de políticos falando sobre os hospitais que foram construídos durante seus respectivos mandatos.

Mas isso nem sempre deve ser celebrado. Em muitos casos, hospitais não são as soluções adequadas para resolver os problemas de saúde.

Primeiramente porque a estrutura hospitalar é frequentemente muito mais sofisticada do que precisaria ser. A maioria dos procedimentos de baixa ou média complexidade podem ser realizados em estruturas muito mais enxutas e eficientes.

Chamados “Centros Cirúrgicos Ambulatoriais”, essas instituições conseguem fazer até 80% das cirurgias mais comuns. Eles estão otimizados para dar alta no mesmo dia, reduzindo a necessidade de internação prolongada.

Um exemplo é o Livon Saúde, localizado em Joinville (SC), que abriu seu primeiro centro este ano.

O centro, um investimento de mais de R$ 50 milhões, tem quatro salas cirúrgicas, centro diagnóstico, instituto de ortopedia integrada, centro de infusões e um pronto atendimento.

“Nosso ecossistema é capaz de resolver quase 90% dos procedimentos requisitados pela ANS” diz o fundador Dr. Rodrigo Tanus. “Conseguimos oferecer procedimentos com valores até 50% abaixo de qualquer prestador da região, com qualidade superior.” Com estes princípios, o objetivo principal do grupo é levar assistência de qualidade a todas as classes sociais.

Em São Paulo, um grupo chamado BR Surgery abriu as portas de seu primeiro centro em janeiro de 2020. “Enquanto os custos com saúde no Brasil aumentam, nosso conceito acaba sendo muito mais barato para nossos clientes com aumento da qualidade assistencial e resolutividade,” diz um dos fundadores, Roberto Schahin.

Ou seja, melhor deixar as cirurgias de coração e cérebro nas mãos dos hospitais grandes, e os demais procedimentos deixar para centros pequenos e ágeis, portanto não tão “glamurosos”.

Os hospitais também tendem a deixar pacientes internados por longos períodos de tempo, quando existem opções mais baratas e humanizadas.

Uma solução é o home care, no qual os pacientes ficam em casa e são monitorados remotamente por meio de equipamentos e visitas domiciliares. Similarmente, existem Clínicas de Transição feitas para pacientes em recuperação ou terminais.

Renato Tilkian, especialista em Clínicas de Transição, nota que o conceito popularizou no EUA. “O número de camas hospitalares no EUA diminuiu bastante em 40 anos —de 1,4 milhão até 900 mil— apesar do aumento de doenças crônicas e envelhecimento da população.” Isso porque as Clínicas de Transição custam, em média, a metade do preço das estadias em hospitais.

Em Joinville, o Dr. Rodrigo Tanus, do Livon Saúde, fala muito do uso de tecnologia para reduzir internações.

A empresa dele criou uma base tecnológica própria, incluindo um prontuário médico e um software com base em IA para gestão de saúde populacional. Isso permite uma atenção primária holística que evita hospitalizações em primeiro lugar.

Para Tanus, esse controle de desfecho clínico é importante: ele ganha dinheiro pela população saudável e não pelos pacientes doentes.

Os acordos que ele faz com seguradoras e empregadoras se chama “medicina baseada em valor”. Especialistas dizem que esse modelo é o que pode, de fato, gerar a disrupção do sistema de saúde no Brasil, além de garantir sua sustentabilidade.

Enquanto algumas regiões do país sim precisam de mais hospitais, em muitos outros casos a política pública precisa focar na desospitalização ao invés de simplesmente ganhar visibilidade.

Referência: Folha de São Paulo