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O abismo entre médico e paciente

03 de janeiro 2020 | Morton Scheinberg

Relação não pode dar lugar a trocas de mensagens

O relacionamento que o médico desenvolve com o seu paciente é uma das partes mais nobres da profissão. Essa conexão, assim como a ciência, passou por transformações nas últimas décadas, em grande parte em razão dos avanços tecnológicos e, principalmente, por conta de recursos de comunicação audiovisual.

Observa-se hoje uma forte pressão em substituir esse contato pessoal entre médico e paciente por aplicativos de celular. Essa pressão pode ser explicada pelas crescentes dificuldades financeiras do brasileiro ou, ainda, pelo interesse em reduzir os custos com a saúde.

Esse movimento, no entanto, traz o risco de fragilizar o relacionamento médico-paciente. A pressão vem de todos os lados, dos hospitais que procuram fidelizar, das operadoras de saúde fazendo pacotes de atendimento para reduzir custos e dos recursos tecnológicos de telemedicina e inteligência artificial.

Como consequência, o resultante dessas forças tende a enfraquecer o médico e sua relação com o paciente, aumentando a distância entre os dois. Ouve-se repetidamente: “O especialista tal, daquele hospital”; como se o nome da instituição fosse o sobrenome do médico. O equilíbrio entre a “marca” hospital e o nome do médico deve ser um vetor de fortalecimento dos dois lados.

A tradicional relação entre paciente e especialista enfrenta hoje um abismo. Procura-se pelo hospital, e não pelo médico — e, neste hospital, qualquer profissional daquela área atende o paciente. Não existe uma relação de proximidade. A pressão das operadoras de saúde por massificação do atendimento para reduzir custos é um dos fatores responsáveis por esse cenário. O médico anônimo passa a ser peça-chave para melhor controle de custos e aumento do faturamento. Esse profissional, mesmo que extremamente qualificado para exercer seu trabalho, não tem como construir um relacionamento com seu paciente.

Há áreas na medicina em que o contato entre profissional e paciente é pequeno, como patologistas e radiologistas, já que os pilares de confiança são fortalecidos pela instituição em que atuam — e não tanto pela relação médico-paciente. Mas, na vasta maioria das especialidades médicas, a verdade é que a qualificação do profissional deve ter destaque semelhante à instituição onde trabalha, pois, na maioria dos casos, ele atua em várias instituições.

O pilar principal que sustenta o relacionamento entre médico e paciente está na confiança que se estabelece entre as partes, quando quem procura tratamento sente-se seguro na competência e decisão do especialista. Isso acontece desde a primeira consulta e vai se cristalizando com os encontros subsequentes.

Um bom relacionamento entre as partes pode influenciar não só o diagnóstico, mas também o prognóstico do paciente. A confiança no médico ajuda o paciente a seguir a recomendação e aderir aos tratamentos.

A classe médica deveria se movimentar para que isso não mude e rejeitar modelos que estimulem a fragilização dessa relação. Caso contrário, teremos uma geração de médicos sem nome, apenas com o sobrenome da instituição onde trabalha.

Esse relacionamento não pode se transformar numa plataforma comercial, sem que o peso da medicina ocupe o seu devido espaço. A competência do profissional está inexoravelmente relacionada aos desfechos clínicos positivos e ao aumento da expectativa de vida com qualidade, mesmo em um cenário onde as doenças crônicas crescem exponencialmente.

Atendimento à saúde pode ser visto como um produto vendável, mas relacionamento entre médico e paciente é outra história.

Referência: Folha de São Paulo