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O tempo dos balões

10 de junho 2019 | Antonio Penteado Mendonça

Em 2019, já tivemos acidentes causados por balões, mostrando o risco concreto que eles representam à aviação; quem indeniza o sofrimento e as perdas causados por eles?

O tempo dos balões chegou. Neste ano, já tivemos acidentes causados por eles e mais de um piloto filmou um balão voando próximo de uma aeronave, mostrando o risco concreto que eles representam para a aviação.

Ninguém discute, um balão iluminado voando de noite é uma beleza. Alguns balões são verdadeiras obras de arte. Feitos para serem belos, eles despertam sentimentos os mais contraditórios, desde a vontade incontida de pegá-los quando caem, até a poesia singela de quadros modernistas. Os balões são, além de tudo, uma antiga tradição brasileira.

Mas há balões e balões, ninguém teme os estragos que um balão “chinesinho” pode causar. Pequeno, com uma mecha capaz de manter o balão voando por pouco tempo, sua queda dificilmente causaria um dano de monta. As probabilidades do artefato cair com a mecha acesa seriam mínimas.

Mas isso não se aplica aos grandes balões, alguns com vários metros de altura e circunferência, fabricados artesanalmente por verdadeiros artistas, especializados no assunto. Esses são lindos, magníficos, encantam quem os vê passando lentamente pelo céu. Navegam ao sabor dos ventos e muitas vezes percorrem longas distâncias antes de caírem, invariavelmente com as grandes mechas acesas, sabe Deus em cima do quê.

Pode ser um pasto. Uma fábrica. Uma casa. Uma loja. Um depósito. Tanto faz. Quando um desses grandes balões cai sobre um imóvel ou uma área com a vegetação seca por causa da época do ano, as chances de gerar um incêndio são enormes.

E as chances desse incêndio se propagar ou alcançar dimensões praticamente incontroláveis são mais do que concretas. São certas. Com tudo de feio e triste que sobra como resto de um incêndio de grandes proporções.

As ameaças vão além do incêndio. Eles agravam o risco do seguro de aeronaves que voam no céu brasileiro

Eu já escrevi contando como a família de uma colega de Rádio Eldorado perdeu a fábrica porque um balão caiu em cima do prédio e as chamas destruíram tudo: edifício, máquinas, matérias primas e produtos estocados. O mais triste é que, por causa da crise e dos prejuízos que vinham sofrendo, não haviam renovado o seguro. Quer dizer, literalmente, perderam o patrimônio e a fonte de renda que lhes dava, desde a época do avô, condições de vida mais do que satisfatórias.

Provavelmente, os responsáveis por soltar esse balão não têm a menor ideia do que eles provocaram. Que, por causa de uma ação imprevidente e que eles não entendem como perigosa, uma família perdeu o patrimônio construído ao longo de décadas de trabalho árduo.

O triste é que, provavelmente, se pensassem nisso, essa possibilidade não teria o dom de inibir sua ação. Eles soltariam o balão e não perderiam tempo com o assunto, exceto se estivessem dispostos a participar da corrida para recuperar o artefato. Algo que muitas vezes é mais emocionante do que soltar o balão e que pode acabar em brigas feias entre turmas disputando o salvado do balão depois de sua queda.

Mas as ameaças de um balão vão além do incêndio. Eles são motivo de agravação do risco do seguro de aeronaves que voam no céu brasileiro. É uma ameaça tão séria que o Brasil é equiparado aos países em guerra para efeito de classificação do risco para as aeronaves.

Soltar balão é crime. A pena pode chegar a 15 anos de prisão. Mas, como aqui é o Brasil e certos atos não são vistos como crimes, barbaridades ou ameaças concretas contra a vida ou o patrimônio de terceiros, soltar balão continua fazendo parte da rotina de pessoas que não têm a menor noção de responsabilidade social, solidariedade ou respeito à lei.

O legal é fabricar e soltar balão. Quanto mais sofisticado e equipado, melhor. Quanto mais longe e mais alto voar, melhor. Quanto mais bonito, melhor.

O seguro patrimonial cobre os danos dos incêndios causados pela queda dos balões. Também cobre os danos decorrentes de um eventual acidente aéreo. Mas quem indeniza o sofrimento e a perda de pessoas e patrimônios que significam muito para alguém?

Para os responsáveis pelos balões, se alguém vai pagar a conta tanto faz, não é problema deles. O seguro que pague ou então o próximo que se dane. Porque legal é soltar balão.

Referência: Estado de São Paulo