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Planos de Saúde: a bola da vez

03 de agosto 2018 | Omar G. Taha

O atendimento à saúde no Brasil é peculiar: aportes públicos são menores do que os da iniciativa privada

Os meios de comunicação divulgaram recentemente reclamações generalizadas contra os planos de saúde. Pesquisa da Associação Paulista de Medicina constatou que 96% dos usuários de planos de saúde do estado de São Paulo tiveram dificuldade para usar o serviço. Demora em marcar consultas e exames, longa espera em pronto atendimento, falta de hospitais para a internação, demora para a aprovação de cirurgias são as principais queixas.

A divulgação dessa pesquisa coincide com uma discussão sobre os índices de aumento dos planos e até a atuação da ANS – Agência Nacional de Saúde – foi questionada pela Ministra Carmen Lúcia, ao propor controle mais adequados às regras de coparticipação nos planos de saúde. Ficou tão confusa a proposta da ANS referente ao limite da coparticipação e franquia que a mesma foi retirada.

O diálogo entre o Sistema de Saúde Suplementar e a comunidade, sempre foi enviesado e nem todas informações chegam à população. A diferença entre os índices de inflação geral e a inflação saúde, por exemplo, no último ano foi de mais de 100%: enquanto o IPCA apontava para uma taxa de 6,28% a inflação saúde, no mesmo período era 12,8%. A culpa não é do aumento dos planos de saúde, mas sim do aumento do custo dos insumos e utilização dos recursos de saúde existentes para oferecer ao beneficiário.

Envelhecimento da população associado à longevidade, surgimento de novas tecnologias e medicamentos, judicialização do setor, estes e outros fatores fazem crescer os custos sem que a receita das operadoras e das cooperativas médicas aumentem proporcionalmente. A análise contábil das cooperativas médicas demonstrará que não há margem de lucro ou quando existem são exíguas, não ultrapassando 1 ou 2 %; justifica-se a existência das mesmas para oferecer mercado de trabalho aos profissionais da área.

É preciso desmistificar que as operadoras e as cooperativas médicas tenham altos ganhos com o sistema e que a ANS – Agência Nacional de Saúde – faz o jogo das cooperativas médicas: ao contrário, disciplina com rigor um setor que é altamente conturbado. O atendimento à saúde no Brasil é peculiar: aportes públicos são menores do que os da iniciativa privada, ainda que os primeiros se prestem a atender toda a população e os segundos se destinem a arcar com as despesas dos participantes dos planos privados, que atendem cerca de 50 milhões de pessoas.

Em 2013, as despesas totais do Brasil com saúde foram de R$ 450 bilhões, ou 9,2% do PIB. “Entre as dez maiores economias do mundo, só no Brasil a despesa privada é maior que a pública”, observa Francisco Balestrin, presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados – Anahp. Do gasto total do país com a demanda, 44% vieram da saúde pública e 56% do setor privado — este último composto pelos gastos com saúde suplementar e também consultas, exames, pequenos procedimentos e medicamentos pagos pelo cidadão. Já a despesa per capita com a saúde é bem maior no setor privado que público: R$ 2.189 ante R$ 980 (Anahp).

Os resultados obtidos pela pesquisa não podem ser extrapolados para todo o País; instituições idôneas revelam acima de 90% de satisfação em relação ao plano de saúde em nossa região e em outras. Planos de saúde, beneficiários e a ANS têm uma relação complicada: a agência inclui sempre novos procedimentos no rol dos planos de saúde; o valor pago pelo beneficiário, muitas vezes é fixo; os pacientes ficam com um crédito para usar o plano; se os ajustes não forem proporcionais à essas demandas e não existirem mecanismos de regulação, como é o caso da coparticipação, o sistema entrará rapidamente em falência o que já vêm ocorrendo em algumas praças. Aí a população deverá contar apenas com o atendimento do SUS. É uma opção viável ?

Referência: Folha de Londrina