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A medicina em nossos dias

20 de março 2018 | Luiz Roberto Londres

A Medicina brasileira está passando por dificuldades crescentes. Esta é, sem dúvida, a pior situação em sua história. As queixas dos pacientes abrangem diversas situações, sendo que as mais constantes são a crise da saúde pública, os preços e negativas de cobertura por parte dos planos de saúde, as longas filas na maioria dos estabelecimentos públicos e privados e os médicos que não conversam com seus pacientes.

O que se depreende de toda esta situação é que o paciente deixou de ser o centro do atendimento e, por vezes, passando a ser um verdadeiro estorvo. Governantes, administradores, responsáveis diversos, e mesmo um grande número de médicos passaram a ter seu foco desviado para outros pontos, sendo que o dinheiro talvez seja o mais importante.

Os serviços públicos brasileiros costumavam ser modelares. No estado do Rio de Janeiro os melhores hospitais eram os públicos, entre os quais o Souza Aguiar, o Miguel Couto, o Hospital de Ipanema, o Hospital da Lagoa, o Hospital do Andaraí e o Hospital dos Servidores do Estado onde se internavam os Presidentes da República que hoje vão para o Sírio Libanês através de seus planos de saúde pagos por nós. Enquanto isso as filas nos serviços públicos crescem a cada dia.

Vemos hoje os recursos que, prioritariamente, deveriam ir para a área da saúde, desviados para outros setores e, por vezes, privilegiando instituições de menor importância social. Isto acompanhado da inépcia de boa parte dos dirigentes nomeados não por sua capacidade, mas por suas relações com os seus superiores. Uma terrível mistura de ignorância e má fé. A origem dos intermediários na atividade médica, hoje a grande maioria planos de saúde, teve sua origem tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil no que se denomina autogestão, instituições que não visam distribuir lucro, mas apenas distribuir o gasto com atendimentos médicos pelos seus associados. Na Califórnia, a Kaiser Permanente e no Brasil o Hospital Silvestre foram os pioneiros.

Aos poucos apareceram os planos de saúde que visavam a distribuição de recursos dando mais importância ao lucro que aos pacientes. Gradualmente foram criando situações que acabaram deturpando o ato médico e desrespeitando aqueles que utilizam seus serviços: seus preços crescem acima da inflação, a negação de cobertura torna-se uma rotina e o pagamento pelos serviços diversos diminuem progressivamente.

Em relação aos médicos os problemas começam na sua formação. O crescente número de escolas médicas, privadas em sua grande maioria, está acompanhado com a crescente falta de qualidade das mesmas. Apenas uns país no mundo, a Índia, com suas 381 escolas está à frente do Brasil com suas 303 escolas. Se somarmos as escolas da China com 150 e Estados Unidos com 147 o Brasil já ultrapassou esta soma. O exame de ordem feito pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo mostra bem essa situação com reprovações acima de 50% dos recém-formados.

E, ainda em relação aos médicos da atualidade, a sua formação não privilegia os princípios da Medicina como atividade ética, humanística e social. A procura de empregos, de participar dos grupos dos planos de saúde e de aumentar sempre que possível os atendimentos em seus consultórios costumam esconder os tais princípios. Hoje vemos médicos que desprezam o ponto mais importante para o estabelecimento de um diagnóstico – a anamnese, e aceitando comissões em função de receita de medicamentos e indicação de exames complementares, criando um evidente conflito ético e dando mais importância aos ganhos pessoais que aos pacientes como seres humanos.

Referência: Jornal do Brasil