Um SUS no fim do túnel

Alterações na legislação têm sido feitas para beneficiar segmentos que visam a lucrar com suas atividades.

Final dos anos oitenta. Éramos membros do Sindicato dos Hospitais do Rio de Janeiro, que congregava grande parte dos hospitais privados de nossa cidade, e quase todos proprietários: Casa de Saúde Saint Roman, em Santa Tereza; Casa de Saúde Santa Lúcia, em Botafogo; Hospital Pró-Cardíaco, também em Botafogo; Hospital Renault Lambert, em Jacarepaguá, e a Clínica São Vicente, na Gávea.

Mensalmente íamos a Brasília acompanhar a evolução da área da saúde no projeto da nova Constituição Federal. Certo dia, no elevador da Câmara dos Deputados, estava um senhor com quem estabelecemos relação; ao chegar ao térreo, nos despedimos nos apresentando e ficamos surpresos ao saber seu nome: era Carlos Mosconi, deputado por Minas Gerais e responsável pela área da saúde na comissão de sistematização, um prólogo da Constituição.

A partir de então, nos comunicávamos tanto pessoalmente quanto por telefonemas. Mosconi tinha uma posição eminentemente social, e um dia ouvimos dele: “Vocês são o único grupo privado que apoia as minhas posições”. De sua ação, nasceu o SUS — Sistema Único de Saúde, uma das criações da chamada Constituição Cidadã, visando a disponibilizar sem ônus para toda a população serviços de saúde.

Mas, a partir de então, alterações na legislação da área da saúde vêm sendo feitas para beneficiar não mais o cidadão, mas entidades e segmentos que, em sua grande parte, mais do que oferecer ou intermediar serviços de saúde, visam a lucrar com suas atividades. E sempre é bom lembrar uma lição do maior filósofo da área médica, Edmund Pellegrino, do Kennedy Institute of Ethics, da Georgetown University: “Os cânones financeiros costumam ser incompatíveis com os cânones éticos”.

A esfera privada nesta área é chamada de “Saúde Suplementar”, ou seja, além do complemento. Conforto, facilidades e escolhas estariam neste âmbito. E o que hoje se vê é a decadência desses objetivos e a transformação progressiva do atendimento médico em um comércio no qual a mercadoria, assim como na prostituição e na escravatura, é um ser humano.

A partir do momento em que a saúde pública voltar a ter qualidade, a área privada terá que voltar aos princípios éticos. Portanto, vemos que um SUS bem elaborado e gerenciado não só terá valor para os menos favorecidos como também para aqueles que podem pagar planos de saúde e serviços médicos tanto de internação quanto ambulatoriais.

Tudo isto mostra o valor de um SUS no fim do túnel.

Referência: O Globo