Dois anos sem Marco Antonio Rossi

Um clima de nostalgia marca a missa de dois anos da morte de Marco Antonio Rossi, que poderia ter em seu sobrenome mais dois: Bradesco e Seguros.

Rossi. Um nome pequeno e simples para representar um ser humano gigantesco. Hoje faz dois anos que todos o perderam. Família, amigos, simpatizantes e todo o mercado segurador. Este último ainda se recupera da perda do maior líder que o setor teve nesses 20 e poucos anos que acompanho a rotina “off” e “on” desta indústria que se aproxima da casa do trilhão de reais em reservas. Um número que ele se empenhava para conquistar no ano de sua trágica morte ao lado do amigo Lucio Flavio Conduru, que presidia a Bradesco Vida e Presidência, e dois tripulantes da aeronave, Ivan e Francisco, no meio do caminho entre Brasília e São Paulo.

Todos gostavam dele. Sabia ouvir e agir para solucionar problemas. Esse era seu grande mérito. Sempre que o via falar e negociar pensava: esse cara veio com um chip diferenciado entre todos os CEOs que acompanho. Não que desdenhasse o poder e o dinheiro, dois atributos de quem vive a rotina dos mercados financeiros. Apenas sabia que isso é uma consequência da boa gestão e de ter equipes motivadas.

Nunca ouvi um comentário sequer de qualquer pessoa que o desmerecesse. Não julgava, não fazia “panelinhas” e tinha a convicção de que o brasileiro e o Brasil estavam prestes a conquistar seu lugar no mundo guiados pelo propósito do trabalho e do lema “a união faz a força”. Sem saber, ele já praticava há anos o que está em moda hoje: a diversidade. Nunca ouvi ele fazer qualquer comentário que desmerecesse raças, opção sexual, gêneros ou credos.

Tinha a verdade no olhar. Passava confiança e por isso conseguia atrair todos em um único objetivo. Funcionários, corretores, seguradores, prestadores de serviços. Muitos contam como Rossi sabia negociar e envolver todos numa solução de conflito rapidamente. Tanto que negócios importantes, como a sucessão na presidência do Bradesco e a joint venture com a Swiss Re demoraram quase um ano e meio para serem retomadas. Fora outros negócios, como investimentos em tecnologia, algo que o fazia vibrar. Até mesmo o trilhão em reservas do mercado segurador ficou para 2018.

Era o candidato mais certo para suceder Luiz Carlos Trabuco na presidência de um dos maiores bancos privados do Brasil. Depois de Rossi, foi difícil escolher um executivo para liderar a Bradesco Seguros. Randal Zanetti assumiu provisoriamente. Somente depois de mais de um ano foi escolhido o definitivo.

Rossi preparava Cadu para presidir a Bradesco Seguros, como é conhecido Carlos Eduardo Sarkovas. “Cola nele pois ele é o menino da Cidade de Deus”, dizia Rossi com frequência ao se referir ao jovem que há 16 anos constrói sua carreira em seguros. Recentemente Cadu deixou o grupo Bradesco para liderar a thinkseg, uma startup de venda de seguro pelo celular.

“Rossi inspirava a todos. Comecei a trabalhar com ele como estagiário. Origem humilde e sem grandes mestrados, ele era um líder nato. Amigo de todos. Super pai, super marido, super irmão, super amigo, super executivo. Tinha a verdade no olhar. Ele vivia o que falava. Isso fazia com que ele colocasse qualquer projeto em um elevado patamar”, comenta Cadu.

O caminho certamente será longo para o atual presidente da Bradesco Seguros, Octavio de Lazari, um executivo preparado e carismático. O problema é que as pessoas insistem em comparar todos a Rossi, o que torna a missão do sucessor quase impossível.

Na CNseg, entidade que presidia, Rossi foi substituído pelo Marcio Coriolano, que conquistou a todos com o jeito Bradesco de ser, onde as relações são nutridas como uma extensão da família, diferente do mundo corporativo no qual o dinheiro e poder falam mais alto.

Sua página no Facebook continua ativa com quase 4 mil amigos, que vez ou outra entram lá para dizer que ele foi um grande homem e expressar “saudades”. Enquanto todo o mercado temia as redes sociais, ele foi o primeiro a abrir um perfil e aceitar todos que solicitavam sua amizade. Mas gostava mesmo era de postar sobre o Corinthians, churrasco e as vitórias do Bradesco, banco que certamente iria presidir se estivesse vivo.

Aparentemente apenas duas coisas incomodavam Rossi: queria ter mais tempo para passar com a família, o que incluía as cachorras, e a balança. Ganhou uns quilos extras ao jogar menos futebol do que queria com os amigos.

A equipe que fez o resgate disse que nada restou. Apenas uma foto de Jesus Cristo foi encontrada na cratera formada na terra. Lenda ou não, esse fato se junta ao mistério de Deus ou dos homens, sobre o motivo de uma pessoa tão do bem e dedicada a mudar a vida dos brasileiros ter perdido a vida de forma tão abrupta no ápice da consciência de que a vida é curta para não ser um cara do bem.

Enfim, fica a saudade desse “cara”, que realmente tinha fé e a certeza de que Deus é brasileiro. Como lembrou bem o padre na missa, a frase de Santo Agostinho: você que ficou, siga em frente, pois a vida continua linda e bela como sempre foi.

Vamos fazer como Rossi: viver bem e fazer o bem.

Referência: Sonho Seguro