Os estragos estão acontecendo

A ordem de grandeza dos furacões atingiu o máximo na escala e a devastação deixada, até em áreas não diretamente atingidas, mostra a violência da natureza

Ninguém mais tem dúvidas. Nem mesmo os céticos em relação às mudanças climáticas duvidam que elas chegaram e custam muito caro para a humanidade.

É olhar o que está acontecendo pelo mundo para se ter certeza de que as coisas mudaram profundamente e que estas mudanças têm impacto direto e terrível na vida das pessoas.

Para quem gosta de espetáculo, os três furacões que recentemente varreram o Caribe e os Estados Unidos são o aviso divino de que daqui para frente nada será como antes. A ordem de grandeza dos furacões atingiu o máximo na escala e a devastação deixada, até em áreas não diretamente atingidas, mostra a violência da natureza e a absoluta insignificância e a impotência do ser humano diante dela.

Ao mesmo tempo em que os furacões varriam o Caribe e o Atlântico, tufões e tempestades violentíssimas cobravam seu preço no Pacífico e na Ásia. Quer dizer, o fenômeno é global e atinge indistintamente toda a humanidade.

Para quem imagina que o quadro se restringe aos grandes eventos como os furacões e os tufões, vale lembrar que os incêndios que atingiram Portugal, Espanha, Estados Unidos e agora devoram grandes áreas brasileiras são consequência do fenômeno. São as mudanças climáticas que estão alterando o sistema de chuvas e consequentemente abrindo espaço para os incêndios, cujos danos vão além das áreas queimadas, na medida em que lançam poluição na atmosfera e contribuem para o aquecimento do ar.

O Brasil é um bom exemplo do que pode acontecer em função das alterações da natureza. Tanto faz se o fenômeno é absolutamente natural ou se o homem contribuiu para sua ocorrência, o fato incontroverso é que o Nordeste atravessa uma das mais severas secas de que se tem notícia, enquanto o Sul sofre com inundações anormais causadas pelas chuvas torrenciais que caem na região, até nos meses tradicionalmente secos.

A discussão que se coloca não é se o planeta está ameaçado. O planeta já passou por mudanças radicais e continua aí, firme e forte. O ponto central a ser enfrentado é o que estas mudanças podem fazer para a espécie humana, esta sim, relativamente ameaçada pelas consequências dos eventos de origem climática.

Estudos sobre o assunto mostram que na base do crescimento dos estragos e dos prejuízos está a soma do aumento da frequência e da força dos eventos com a ocupação de áreas sujeitas aos diferentes fenômenos por um número cada vez maior de seres humanos, concentrados em regiões urbanas, com alta impermeabilização do solo e condições operacionais capazes de alterar o clima.

As alterações provocadas pela natureza vão muito além dos grandes eventos.

Imensas áreas de litoral ao redor do planeta estão sofrendo mudanças radicais, com o assoreamento de portos e bocas de rios, destruição de praias, mudanças da topografia e da flora, força das marés e danos diretos aos seres humanos que habitam estas regiões.

Não é preciso ir longe para ver os estragos. A cidade de Santos começa a sentir rotineiramente os impactos das mudanças climáticas.

A ordem de grandeza dos prejuízos gerados pelos eventos de origem natural, especialmente os de origem climática, cresce exponencialmente, ano depois de ano. Já tem quem fale em mais de US$ 500 bilhões, impulsionados pelos três furacões e dois terremotos que atingiram o Caribe e a América do Norte. E se somarmos todos os danos causados pelas secas e inundações ao redor da terra, com certeza o número é maior ainda.

Ao longo dos últimos anos, o preço dos seguros em geral vinha caindo de forma acentuada. Com o novo cenário, é provável que este ciclo tenha chegado ao fim. As seguradoras precisam se proteger e se capitalizar para enfrentarem os novos riscos e desafios à sua frente.

Para isso, além de rever seus preços em geral e os produtos específicos para danos de origem natural, elas precisam negociar com os governos até aonde vai a responsabilidade de cada um. A atividade seguradora mundial não tem porte para fazer frente ao novo cenário. Assim, muito provavelmente todos os tipos de seguros passarão a custar mais caro rapidamente.

Referência: Estado de São Paulo