Capitolio


Com avanço da pandemia, Campinas quer estrutura do hospital do Pacaembu

03 de julho 2020

Região tem piora nos índices de ocupação de leitos e corre risco de fechar comércio

Com o avanço da pandemia do novo coronavírus, Campinas corre o risco de ter seus leitos de UTI lotados. Por isso, a cidade tenta receber a estrutura do hospital de campanha do Pacaembu, hoje desativado, remontada para atender pacientes.

A região metropolitana da cidade paulista corre risco de ter que fechar o comércio a partir da próxima segunda-feira, devido à piora de seus índices. O governo João Doria (PSDB) deve anunciar as novas medidas nesta sexta-feira (3), quando são reveladas as áreas do estado que avançam ou regridem na reabertura.

“Quando [a Grande] São Paulo passou pelo apuro Campinas socorreu. Eu recebi muito paciente de Ferraz de Vasconcelos, Franco da Rocha. Agora, o que eu estou pedindo para o estado? Uma reciprocidade”, afirmou o prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), à Folha.

“Acolher pacientes aqui da região de Campinas, porque os meus equipamentos de saúde estão muito sufocados com esse aumento que teve. Estamos no limite”, afirma.

O Plano São Paulo, do governo Doria, classificou o Departamento Regional de Campinas, que inclui 41 municípios além da própria metrópole, na fase 2 (laranja). Isso permitiu a retomada parcial dos setores de comércio e de serviços, a partir de 1 de junho.

Campinas optou por não reabrir, mas as cidades de sua zona metropolitana, sim. Desde então, com algumas variações entre os municípios, a região registra uma disparada nos números de casos confirmados, de mortes e de internações por Covid-19.

Municípios pequenos da região já atingiram a totalidade de sua capacidade de atendimento hospitalar, mesmo tendo recebido respiradores extras enviados pelo governo estadual nas últimas semanas.

Foi o caso de Santa Bárbara d’Oeste, que está com 100% de ocupação de leitos de UTI e de enfermaria e que abriu nesta semana pela primeira vez seu hospital de campanha, para atendimento de casos considerados pouco graves. A cidade obteve em junho sete respiradores extras.

No último dia 17, o pedreiro Aparecido Vieira, 57, morreu após esperar cinco dias por uma vaga na UTI do Pronto-Socorro Edson Mano. Quando conseguiu transferência para o Hospital Municipal de Sumaré, era tarde: seu estado havia se deteriorado, impedindo que fosse transferido, segundo a prefeitura de Santa Bárbara.

A cidade de 192 mil habitantes subiu de 54 casos confirmados em 1 de junho, quando o comércio foi reaberto, para 450 nesta quarta, e de 4 para 20 mortes no mesmo período.

A prefeitura de Americana informou que, dentre hospitais particulares e o municipal, havia atingido até a quarta 72% de ocupação dos leitos com utilização de respirador e 64% de leitos simples. Recebeu cinco respiradores do estado em junho.

Hortolândia começou junho com 14 casos e agora tem 586. “Subiu como um foguete”, afirma o secretário adjunto de Saúde, Rodrigo Freire. “E continua subindo. Cada dia vemos a pandemia mais próxima e intensa.”

“As cidades nos arredores quase não têm hospital”, diz o prefeito de Campinas.

Nesta quinta, a cidade informou que estão lotados 88,17% de seus leitos exclusivos para pacientes com Covid-9 nas redes pública e particular. O SUS municipal tem 97% de lotação; o SUS estadual, 91%; e a rede particular, 78%.

No conjunto do DRS Campinas, a taxa de ocupação de leitos de UTI exclusivos para paciente de Covid-19 estava em 79,6% na quarta, o que levou o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, a fazer um alerta.

“A região de Campinas já tinha aumento na taxa de ocupação da cidade sede. Agora tem um aumento também nas outras cidades. Os municípios da Região Metropolitana de Campinas devem ter cada vez mais cautela e cuidados nesse momento que nós passamos”, afirmou Vinholi.

O percentual de 80% é um dos critérios técnicos usados na classificação de fases no Plano São Paulo —em junho, a região permaneceu na fase 2 por não ter atingido esse limiar. Ou seja, corre risco de ser rebaixada para a fase 1, vermelha, nesta sexta.

Segundo Donizette, o governo Doria já acenou com a possibilidade de transferência da estrutura do Pacaembu.

“Eu falei tanto com o vice-governador [Rodrigo Garcia] quanto com o secretário [Marco Vinholi] sobre isso [receber a estrutura do Pacaembu]. Aí ele falou que estaria conversando com o secretário de Saúde, para pegar o hospital e trazer para Campinas”, relata. “Falei: olha, o estado fez uma grande movimentação na capital e em Campinas até agora nós não tivemos esse mesmo cuidado.”

O hospital de campanha do Pacaembu custou R$ 23 milhões e foi desativado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) após as internações caírem na capital.

A Folha apurou que o tucano ofereceu a estrutura ao governo Doria, que estuda agora como seriam cobertos os custos do hospital — se por uma divisão entre os municípios ou com auxílio da iniciativa privada.

Autor: Artur Rodrigues e Carolina Vila-Nova
Referência: Folha de São Paulo