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‘Espero que tenham aprendido o valor da ciência pela falta dela’, diz diretor do Einstein

25 de junho 2020

Luiz Vicente Rizzo acredita em chance de vacina pela quantidade de estudos e diz que hoje pacientes não morreriam como há 4 meses

“Espero que as pessoas tenham aprendido o valor da ciência pela falta dela”, disse o médico Luiz Vicente Rizzo, que é diretor superintendente de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

Rizzo participou do Ao Vivo em Casa, nesta quarta-feira (24), série de lives realizadas pela Folha durante a quarentena. A conversa foi mediada por Cláudia Collucci, repórter especializada em saúde.

Para Rizzo, faltaram, da parte da ciência, estudos contínuos após outras epidemias, como a Sars-Cov-1 e Mers. “Faltou ciência e faltou investimento quando o problema foi anunciado há duas décadas, foi a famosa crônica da morte anunciada”, disse ele.

Ele também comentou sobre a hidroxicloroquina. O medicamento, que foi o centro de discussões políticas, era no início da pandemia um dos poucos que tinham alguma evidência de melhora.

“Hoje aprendemos muita coisa, como o uso do corticoide, anticoagulante e oxigenação. Melhoramos muito o entendimento da doença. Pessoas que morreram há quatro meses provavelmente não morreriam hoje, porque entendemos mais a doença. Então, faz todo sentido que você retire da indicação uma coisa que no momento não é mais tão necessária, porque temos outros protocolos que são sabidamente mais eficientes para pacientes graves”, explicou ele.

Comentando o fato de que há mais de 140 vacinas sendo testadas pelo mundo, o médico disse que “a chance de ter uma vacina que funcione está muito mais baseada na quantidade do que no conhecimento real sobre a biologia do vírus”.

Isso porque ainda se conhece muito pouco sobre o Sars-Cov-2 em geral, explicou Rizzo, citando a falta de compreensão sobre quais são as populações resistentes ao coronavírus.

O médico, porém, pareceu otimista ao falar dos resultados de algumas que já demonstraram resultados prévios positivos. É o caso da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, que está sendo testada no Brasil pela Unifesp.

“A gente tem muita possibilidade de conseguir um bom resultado, mas o problema de conseguir um bom resultado é que ele demora um ano”, explicou o médico.

Rizzo diz que é preciso cautela sobre as discussões de uma suposta segunda onda da pandemia. Para o médico, outras preocupações vêm antes, como o que vai pessoas que tiveram o coronavírus, ficaram com sequelas renais e pulmonares e que podem pegar gripe no inverno.

Além do contágio pelo coronavírus e vacinas, o médico também falou sobre a saúde mental das pessoas durante a quarentena, algo que tem sido estudado pelo Hospital Albert Einstein. “Começamos a estudar não só se ia piorar a saúde mental, mas quais as alternativas para mitigar o estresse”, disse ele.

“A pressão de perder o contato com os próprios familiares é adicionada a outros fatores geradores de estresse, como nos casos de uma internação pela Covid-19, em que a pessoa fica isolada”, explicou Rizzo, que disse que, durante uma pesquisa, observou-se que as pessoas se estressam com qualquer tipo de notícia relacionada ao coronavírus, mesmo as boas.

Alternativas já conhecidas são indicadas para todos durante este período, como fazer exercício, falar regularmente com amigos e familiares, meditar ou até olhar uma imagem da natureza.

A série Ao Vivo em Casa é transmitida no site da Folha e no canal do jornal no YouTube. Durante a semana, a programação tem entrevistas sobre temas variados que vão de política e economia a saúde e cultura.

Referência: Folha de São Paulo