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Administrador cria rede de clínicas e tecnologia para os ‘sem-teto da saúde’

05 de novembro 2019

Dr. Consulta aposta em eficiência e baixos custos para tirar milhões da fila por assistência

Quando juntava peças de carrinhos desprezadas sob pistas de Autorama, aos 12 anos de idade, Thomaz Srougi tinha um objetivo: vendê-las para financiar um cobiçado modelo Miura, que na época não podia comprar.

Vinte anos depois, quando chegava às 5h30 na fila de um posto de saúde no Sacomã (zona sul de SP), a persistência era a mesma, mas a meta era outra: entender as dificuldades de atendimento em uma das regiões mais carentes da capital paulista, para encontrar soluções.

O local era a favela de Heliópolis, e o empreendimento que Thomaz iniciava era uma clínica médica de preço acessível, que oito anos depois se expandiu para 59 unidades, 1.700 médicos e 1,5 milhão de pacientes nos últimos três anos.

Foi só em 2011 que a medicina passou a fazer parte da vida profissional de um menino que passou parte da infância entre gazes e esparadrapos, brincando de múmia com seu irmão mais novo, Victor.

O pai, o urologista Miguel Srougi, ainda não havia se tornado um dos mais bem-sucedidos médicos brasileiros, e a proximidade com a área de saúde lhe trazia inquietações: “Por que as coisas não funcionam no Brasil? Por que há tanta gente na rua e ninguém faz nada? Por que os médicos trabalham tanto e tem gente que não consegue ser atendida?”

Mas Thomaz, 43, nunca pensou em ser médico. Incentivado pela mãe, Iara, professora formada em filosofia, dedicou-se aos esportes e ao estudo. Ganhou medalhas como atleta infantil e juvenil de natação, formou-se em administração (Faap) e matemática (USP) e passou a negociar moedas no banco BBA.

“Minha história não tem muita graça, é só ralação”, diz o CEO do dr.consulta, quando termina de contar sua trajetória profissional. É casado e pai de dois filhos, mas prefere não falar da família.

O mercado financeiro, diz, não era um atalho para ficar rico: “Gostava do desafio intelectual, mas via o emprego como degrau para algo maior”. Pouco depois, decidiu estudar finanças e políticas públicas na Universidade de Chicago, momento que O pai considera um marco na vida do filho:

“Thomaz nunca se empolgou com conforto material. O que o encantava era estudar nas melhores escolas do mundo, conhecer pessoas que considerava modelos”, diz Miguel, referencia em cirurgia de câncer de próstata, com lista de políticos, banqueiros e empresários entre os pacientes.

Em Chicago, Thomaz se convenceu de que é preciso envolver empresas para que o atendimento funcione. “Elas têm agilidade para tomar decisões e são autossuficientes no sentido financeiro.”

Na Ambev, onde se empregou em seguida, conheceu o executivo que considera um de seus principais mentores, Luiz Claudio Nascimento, com quem trabalhou na abertura de capital da Gafisa. Juntos também montaram a Tenda, empresa construção focada em baixa renda cujo lançamento de ações, em 2007, levantou US$ 345 milhões.

Aos 29 anos, Thomaz virou sócio do ex-chefe na Galícia Investimentos e se aproximou de negócios inovadores. “Investíamos em jovens com ideias para mudar o Brasil.”

Veio a crise global e ele partiu para Harvard, onde se especializou em gestão. Foi ali, ao estudar o caso das mexicanas Farmácias Similares, que despontou a ideia de investir em atendimento de saúde.

“Resolvi ler tudo sobre o setor e vi que o déficit era grande, crescente e sem solução. De um lado, o SUS estressado pela demanda, do outro os planos de saúde, cada vez mais caros.” A alternativa criada por Thomaz passava por usar gestão e tecnologia, como prontuário eletrônico, para baixar custos e dar bom atendimento a preços baixos.

“Não vai dar certo”, ouviu de médicos conhecidos. Resolveu provar o contrário. O empreendedor, que se descreve como inconformado e obcecado, usou pragmatismo e determinação na empreitada, segundo Bruno Reis, diretor médico do dr.consulta.

Ele conta que Thomaz registrava numa planilha todos os dados possíveis, acompanhava de perto o funcionamento da clínica e reunia a equipe para reforçar o objetivo de ter “médicos e pacientes felizes”.

Esse envolvimento, diz Reis, compensava as mais de três horas de trânsito enfrentadas pelo médico para chegar ao extremo sul da capital paulista. O CEO, diz Reis, se dedica mais às soluções que aos obstáculos, delega responsabilidades, confia e avalia resultados sem rodeios.

Confiança é um dos traços ressaltados pelo Srougi pai, que aborda o outro lado da moeda: “Quando Thomaz se decepciona com alguém, simplesmente o tira da frente”. O filho, diz Miguel, “fica desconcertado com erros, dele ou dos outros, e às vezes esquece que em relacionamentos é preciso flexibilidade”.

A dureza vem sendo contrabalançada aos poucos com um olhar mais doce, próprio da aproximação com a prática médica, segundo o urologista.

“Ele foi percebendo que na saúde 2 mais 2 podem ser 5, não há perfeição matemática nem adianta só fazer contas. Estão envolvidos valores, sentimentos e sofrimento.”

Justamente o equilíbrio que Thomaz valoriza quando elogia seu mentor Nascimento: “Sempre tem uma visão humana das pessoas, é inteligente, tem carisma e ao mesmo tempo entrega resultados”.

“Hoje criamos novos projetos, fidelização, e tudo isso tem dado certo porque ele é muito arrojado”, devolve o parceiro. Para Nascimento, uma das principais qualidades do CEO da dr.consulta é “acreditar que pode dar certo”.

Não foi um crescimento sem percalços nem é obra acabada. A clínica de Heliópolis precisou ser fechada por questões de segurança, e a equação de contratar médicos competentes e bem remunerados e oferecer atendimento de qualidade a preço baixo requer reinvestimento constante em tecnologia e novos serviços.

O desafio, diz o fundador, é o de um malabarista: “É preciso manter rodando no ar os três pratos ao mesmo tempo: o dos médicos, o dos pacientes e o dos investidores”.

O retorno é de longo prazo. Uma das marcas do empreendedor é a perseverança, segundo Miguel. “A cada desafio, ele luta arduamente para vencê-lo. Mais do que a média das pessoas luta.”

E a batalha é gigante.“O sonho é reduzir os sem-teto da saúde no Brasil a zero”, diz Thomaz. “E quem sabe um dia exportar um modelo nascido em Heliópolis para o mundo.”

Autor: Ana Estela de Sousa Pinto
Referência: Folha de São Paulo