Capitolio Consulting


Vulnerabilidades

09 de agosto 2019

O Fundo Monetário Internacional (FMI) vem chamando a atenção, notadamente em seus Relatórios de Estabilidade Financeira Global, para um aumento na vulnerabilidade financeira em setores públicos e privados. As políticas monetárias brandas adotadas após a crise de 2008 foram indispensáveis à recuperação econômica, mas também criaram um ambiente propício ao risco.

Ante a recente desaceleração da economia global, os pesquisadores do FMI falam em um “dilema” para os gestores públicos: “Ao abordarem a política monetária de maneira paciente, os bancos centrais podem acomodar os crescentes riscos de deterioração da economia. Mas se as condições financeiras permanecerem brandas por tempo demais, as vulnerabilidades continuarão a se acumular, e as chances de uma queda acentuada do crescimento econômico em algum ponto mais adiante serão maiores”. Ante eventuais mudanças abruptas nas políticas fiscais ou nas relações comerciais – como por exemplo o conflito entre EUA e China ou um Brexit sem acordo –, essas vulnerabilidades podem amplificar o impacto dos choques e intensificar a desaceleração.

Especialmente preocupante é a escalada do endividamento e dos consequentes riscos assumidos pelos credores. Em dez anos, a dívida total dos governos, empresas e famílias subiu de cerca de 200% do PIB mundial para quase 250%.

Nas economias avançadas o endividamento empresarial atingiu um nível sem precedentes e, por correlação, a confiabilidade dos devedores vem se deteriorando. Ao mesmo tempo, a quantidade de títulos de baixa credibilidade e de créditos especulativos aumentou. No caso de um súbito aperto das condições financeiras ou de uma crise, essas empresas teriam poucas condições de saldar suas dívidas, tendo de reduzir investimentos ou pessoal. A situação é análoga para muitos países emergentes com poucas reservas cambiais e alta exposição de sua moeda a oscilações internacionais.

Na Europa, os bancos e as seguradoras estão saturados de títulos da dívida pública. Se as pressões fiscais enfrentadas pelos Estados precipitarem uma queda no valor destes títulos, o capital dessas instituições seria gravemente abalado, com o risco de afetar também empresas e famílias.

A China vive seu próprio dilema. De um lado, a baixa lucratividade dos bancos de pequeno e médio portes restringe o financiamento para as empresas menores. A opção seria flexibilizar as condições de crédito. Mas isso poderia retardar o equilíbrio dos balanços desses bancos.

Em relação aos mercados emergentes há uma preocupação com o fluxo de carteiras estrangeiras que buscam atingir os retornos por índices de referência. Cerca de 70% dos fundos de investimentos nesses países são influenciados por tais índices e na última década o volume de investimentos em renda fixa quadruplicou. “Embora os fundos orientados por índices ampliem o universo dos investidores de modo a abranger economias de mercados emergentes”, dizem os pesquisadores do FMI, “também deixam os investidores mais vulneráveis a reversões repentinas dos fluxos de capital em resposta às tendências mundiais.”

O FMI aponta medidas que podem aumentar a resistência do sistema financeiro. Entre elas estão mecanismos que limitem a expansão do crédito por parte dos bancos sem um correspondente incremento das reservas de capital anticíclicas. É preciso também desenvolver ferramentas que freiem o excesso de endividamento empresarial e dos riscos assumidos pelas instituições financeiras. Na zona do euro, seria necessário mitigar o vínculo entre os títulos públicos e o capital dos bancos. Por fim, os mercados emergentes deveriam restringir a dependência do endividamento externo de curto prazo e fortalecer suas reservas cambiais e fiscais.

Tais medidas estabilizadoras são necessárias, porque ante a debacle de 2008 houve uma ação combinada de capitalização entre os bancos centrais e as instituições privadas. Hoje, não há espaço fiscal para isso.

Referência: Estado de São Paulo