Com a crise, saúde privada entrou em depressão

Presidente da Central Nacional Unimed diz que empresas do setor são as mais impactadas pelo modelo de atenção à saúde atual

São Paulo — O capixaba Alexandre Ruschi, presidente da Central Nacional Unimed, dona de um faturamento de R$ 5 bilhões no ano passado, assumiu o comando da empresa em abril de 2017 com a missão de curar a falta de crescimento e a baixa lucratividade da cooperativa que congrega 326 Unimeds em todo o Brasil. De imediato, reduziu despesas, remodelou processos operacionais e renegociou contratos com parceiros e fornecedores. Deu certo. No ano passado, a empresa registrou seu melhor desempenho financeiro em 20 anos e se consolidou como a sexta maior operadora de planos de saúde do Brasil, segundo a Agência Nacional de Saúde (ANS). O resultado operacional passou de R$ 23,3 milhões negativos, em 2016, para R$ 64 milhões no ano passado, e o resultado líquido avançou 32%, de R$ 100,3 milhões para R$ 132,5 milhões. Cirurgião geral, Ruschi é considerado um dos principais personagens da indústria da saúde no país. “As empresas de saúde são as mais impactadas pelo modelo de atenção à saúde atual. Um modelo oneroso e ineficiente para o país que inclui a remuneração dos médicos, dos hospitais, dos prestadores de serviços, dos laboratórios, entre outros”, afirma. Quais são os maiores desafios para o setor da saúde privada no Brasil?

Os maiores desafios da saúde privada no Brasil são os mesmos em discussão na saúde pública. É preciso uma transformação do modelo de atenção à saúde no Brasil, que é baseado num acesso pouco monitorado. Com isso, o acesso a diversas especialidades médicas é realizado sem um adequado referenciamento e contra referenciamento. Ainda estamos na contramão do sistema de saúde mundial, que conseguiu ter uma orientação mais sustentável em longo prazo.

O problema está no modelo brasileiro?

O modelo brasileiro é copiado do americano, no qual o livre acesso a especialistas proporciona uma utilização exagerada, causa uma falta de acompanhamento e gera ineficiência, não só do ponto de vista de custos desnecessários, como também no monitoramento da saúde do indivíduo, que é totalmente fragmentado. Por isso, o principal desafio da saúde brasileira é conseguirmos reorientar o modelo de atenção à saúde, para que a porta de entrada se inicie pelo atendimento do médico de referência, por meio da atenção primária. Esse modelo vai permitir que o paciente consiga ter sua saúde monitorada ao longo da vida, com acompanhamento e avaliação da equipe de saúde.

Com a alta do desemprego, grande parte dos planos de saúde perdeu clientes nos últimos anos. Qual foi o impacto desse problema na Central Nacional Unimed e como a empresa administrou essa situação?

Importante sempre reforçar que o sistema de saúde brasileiro compatibiliza a saúde pública e a saúde privada. Isso está previsto na Constituição. Ou seja, as pessoas podem optar por utilizar os serviços da saúde pública ou privada. Evidentemente, o sistema de saúde privada é muito impactado pelos problemas econômicos que vêm atingindo o Brasil. Com a crise, os serviços, a indústria, o sistema de saúde privada entraram em depressão, especialmente em função do desemprego que agora está em patamares muito elevados.

Que diagnóstico o senhor faz do setor privado?

O sistema de saúde privado brasileiro perdeu milhões de clientes ao longo dos últimos cinco anos, algo como 5% ou 6% do total. Porém, a Central Nacional Unimed, que é a maior operadora do Sistema Unimed, teve um impacto muito pequeno, pois geralmente os sistemas de cooperativas se adaptam aos momentos de crise. Só no ano passado, por exemplo, realizamos, 9 milhões de consultas, 26 milhões de exames e 202 mil internações. O modelo de cooperativismo, adotado pela Unimed, exonera e tira a intermediação. O objetivo final é a remuneração direta do médico cooperado. Portanto, sofremos esses impactos, mas ficamos na média em relação ao sistema de saúde suplementar brasileiro.

Como estão os resultados da Unimed neste ano?

Em 2017, o resultado líquido da Central Nacional Unimed no primeiro semestre foi R$ 88 milhões, já em 2018 alcançamos R$ 142,7 milhões no mesmo período, representando um acréscimo de 62,16%. Acredito que as empresas de saúde são as mais impactadas pelo modelo de atenção à saúde atual. Um modelo oneroso e ineficiente para o país, que inclui a remuneração dos médicos, dos hospitais, dos prestadores de serviços, dos laboratórios, entre outros. Atualmente, os profissionais são remunerados pela quantidade de procedimentos que fazem. Um grande equívoco que vem sendo revisto no mundo inteiro. Deve-se lembrar que o custo com saúde no Brasil é o segundo maior custo dentro da folha de pagamento nas empresas.

A chamada inflação médica tem crescido no Brasil muito acima dos índices oficiais de inflação. Esse descompasso não pode gerar um colapso da saúde privada?

A inflação médica é um fenômeno mundial e está descolada da inflação geral, na maioria dos países. Portanto, isso não é uma exclusividade do Brasil. O país tem uma das maiores inflações médicas do mundo, porque soma alguns fatores como a transição demográfica. O envelhecimento da população está se consolidando em uma velocidade muito maior comparada a outros países. As patologias crônicas, o câncer, entre outras doenças que acometem o idoso, oneram o custo assistencial. Outro componente importante é o alto custo da incorporação de novas tecnologias, a utilização de órteses e próteses em uma escala mal controlada, com custos muito elevados. Isso também passa por uma cadeia improdutiva que incorpora corrupção, propina e ineficiência.

A alta do dólar, que encarece a importação de equipamentos e medicamentos de fora, tem pressionado seus custos?

Neste momento o impacto ainda é pequeno. Se continuar, teremos reflexos, pois dependemos de insumos importados. Mas isso ainda é imperceptível, pois tivemos uma alta grande que está sendo absorvida pelas margens que a indústria repassa junto aos distribuidores. Portanto hoje é um fenômeno pouco percebido.

Qual é o plano de investimentos da Central Nacional Unimed e qual será a estratégia para ampliar a atual carteira de clientes?

A Central Nacional Unimed vem fazendo um esforço, ao longo do último ano, remodelando propostas de produtos que tenham maior adesão regional. No total, somos 326 sócios, com 1.327 colaboradores. Essa força de trabalho promove assistência a mais de 1,5 milhão de beneficiários. Isso inclui os lugares onde possuímos a gestão da própria área, como São Paulo, Salvador, Brasília, São Luís e região do ABC. Isso inclui também as áreas onde a Central Nacional Unimed opera com as cooperativas de Unimeds para melhor eficiência na montagem das redes assistenciais. Também estamos com projetos que visam a atenção primária como porta de entrada do sistema com uma visão de atenção integral à saúde.

Historicamente, parte dos custos dos planos de saúde é atribuído a fraudes geradas por hospitais e médicos, que inventam procedimentos para elevar os custos e faturar mais. Como a Central Nacional Unimed se protege dessas fraudes?

Essa é uma preocupação sistêmica. A Central Nacional Unimed é um conjunto de operadoras Unimeds que são sócias da Central. Essas Unimeds têm implementado uma série de planos de ação para combater fraude e mitigar o malefício de procedimentos desnecessários. Nossos comitês e conselhos técnicos são bastante eficientes, gerando protocolos com o objetivo de prover os melhores resultados possíveis com estruturação de modelos de auditoria e gestão de risco. Essas ações incentivam nossos serviços para melhorar a adesão de processos de auditoria. Com essas iniciativas, conseguimos fazer intervenções que minimizam os prejuízos para o cliente e para a empresa.

Embora a Central Nacional Unimed não tenha responsabilidade sobre a administração e todas as Unimeds no Brasil, os problemas financeiros de algumas delas, como a falência da Unimed Paulistana, geraram fuga de clientes para outras operadoras e seguradoras de saúde?

Existe um esforço bastante robusto na Central, em conjunto com a Unimed Brasil, que é responsável pela nossa política institucional, para que a Central Nacional Unimed possa ser mais uma cooperativa capaz de reestruturar o sistema nas regiões mais afligidas pelo processo regulatório brasileiro. Por exemplo: na Bahia, estamos consolidando uma série de cooperativas que passaram a ser prestadoras de serviços da Central Nacional Unimed. Ali, assumimos toda a operação, a comercialização de planos de saúde, a gestão de rede e a gestão de intercâmbio. Com isso, a Unimed Bahia poderá se dedicar exclusivamente à gestão dos seus ativos cooperados médicos e a interação com a sociedade. Em São Paulo, estamos trabalhando intensamente na consolidação de uma Central Nacional Unimed única, responsável pela comercialização de planos e toda gestão na capital e no ABC. Essa soma de esforços junto à Unimed Brasil é um trabalho preventivo. Assim, a Central Nacional Unimed consegue preencher lacunas para continuar garantindo atendimento.

Autor: Jaqueline Mendes
Referência: Correio Braziliense